Verão no Lago 

 

BEM-VINDOS AO ACAMPAMENTO KIOGA

Franklin Delano Roosevelt disse, certa vez, que “o acampamento de férias foi a maior contribuição que os Estados Unidos deram ao mundo”. Qualquer pessoa que visite o acampamento Kioga descobre por si mesmo. O Kioga é um lugar onde os sonhos ainda existem e são reais, onde se pode mergulhar nas águas cristalinas de um lago natural, fazer longas caminhadas até o topo das montanhas e erguer o olhar para o céu, contemplar o brilho das brasas incandescentes de uma fogueira à noite e imaginar tudo que o futuro lhe reserva.

 

REGRAS DO ACAMPAMENTO KIOGA

No acampamento Kioga, hasteiam-se três bandeiras: a bandeira oficial do acampamento e as do estado de Nova York e a dos Estados Unidos, que são içadas diariamente ao amanhecer e saudadas por todos ao toque da alvorada. Quando todas as bandeiras estiverem na mesma corda, a bandeira dos Estados Unidos deve ficar acima das outras. Quando as bandeiras estiverem hasteadas em mastros diferentes, a dos Estados Unidos deve ser a primeira a ser hasteada e a última a ser baixada. Nenhuma bandeira ou flâmula poderá ficar acima nem à direita da bandeira dos Estados Unidos. Quando as bandeiras estiverem a meio pau, a dos Estados Unidos ficará na metade do mastro e as outras duas ficarão

um pouco abaixo dela. 

 

Prefácio 

Olivia Bellamy tentava decidir o que era pior: ficar presa no alto do mastro de uma bandeira, sem nenhuma ajuda por perto, ou aceitar a ajuda de um Hell’s Angel que acabara de chegar.

Seu plano de hastear as bandeiras no acampamento de férias Kioga, pela primeira vez em dez anos, a princípio parecia muito simples. Então, o cabo e a roldana haviam emperrado, mas Olivia não perdera a coragem. Ela abriu uma escada de alumínio velha e subiu até o último degrau para depois descobrir que mesmo assim não poderia alcançar a roldana. Escalar o mastro não seria difícil, disse a si mesma, até que chutou a escada acidentalmente. Sua imbecil, pensou Olivia, presa ao mastro para salvar a

vida. Estava a uma altura considerável e se descesse escorregando pelo mastro de ferro, velho e corroído, arrancaria a pele das mãos e da parte interna das coxas.

Olivia começara a descer muito lentamente quando ouviu o ronco de um motor com o escapamento aberto vindo da estrada.

Ela ficou tão assustada que por pouco não largou o mastro. Instintivamente, agarrou-se com força e fechou os olhos. Vá embora, pensou. Não posso enfrentar quem quer que seja agora.

O barulho do motor ficou mais alto e ela abriu os olhos. Viu então que o intruso era um motociclista todo vestido de couro preto e com o rosto encoberto por um capacete ameaçador e óculos espelhados. Por trás da moto preta e cromada subia uma coluna de fumaça.

Que sorte a minha, pensou. Aqui estou, no meio do nada, e um aventureiro do tipo Sem destino vem me socorrer. Seus braços e ombros já começavam a tremer. De nada adiantou perder tantas horas fazendo exercícios na academia. Lá embaixo, junto à base do mastro, o estranho desmontou da moto e colocou-a no descanso. Em seguida, inclinou-se para trás e olhou diretamente para ela.

Apesar da circunstância, Olivia ficou imaginando como seria a imagem do seu traseiro visto da perspectiva dele. Do modo como crescera, compensando suas frustrações com comida e ganhando

vários apelidos nada lisonjeiros por causa disso, nunca superou por inteiro a insegurança com o próprio corpo.

Fique calma, pensou.

— Olá — disse ela.

— Oi. Tudo em cima? — perguntou ele.

Mesmo sem poder ver seu rosto, Olivia desconfiou que ele estivesse dando uma risadinha sarcástica. E teve certeza disso quando ele acrescentou:

— Desculpe, não resisti.

Legal. Como ela estava com sorte. Um espertinho.

Felizmente, ele não a torturou mais. Pegou a escada e a apoiou no mastro.

— Desça devagar — ele orientou. — Estou segurando firme a escada.

Olivia suava agora, no limite da sua resistência. Ela deslizava lentamente enquanto seu short jeans subia. Ela ainda tinha esperança de que ele não estivesse notando.

— Está quase chegando — falou o estranho. — Só falta mais um pouco.

Quanto mais ela descia, menos estranha parecia a voz dele.

Quando seu pé alcançou o primeiro degrau da escada, ela começou a ter sérias desconfianças a seu respeito. Ela não estivera nos arredores havia muito tempo, o acampamento onde vivera seus sonhos mais delirantes e também seus piores pesadelos.

Agora, não conhecia mais ninguém daquela montanha remota e erma... ou conhecia?

No seu estilo neurótico, lembrou-se que não tinha feito nada de especial no cabelo naquela manhã. Não usava maquiagem alguma nem se lembrava se tinha escovado os dentes. Seu short feito de calça jeans era curto demais e a camiseta, muito apertada.

Descendo pela escada, sabia que lá embaixo a humilhação certa a esperava. Para pisar no chão foi obrigada a passar entre os braços daquele homem que segurava a escada com firmeza.

Ele cheirava a couro e a algo mais.

Os músculos que até bem pouco estavam doloridos e cansados, agora ameaçavam bambear de exaustão. Usou o resto de suas forças para afastar um dos braços dele e não ficar presa. Ele largou a escada e levantou as mãos de ciborgue para sinalizar que era de paz. Mãos tipo Darth Vader, enormes, com luvas pretas.

Mãos do Exterminador.

— Tudo bem — disse ele. — Está segura agora.

Olivia apoiou as costas na escada, e quando o encarou sentiu o chão desaparecer sob os pés. Nada mais parecia seguro. Ele era imenso, a robustez ressaltada pelo couro preto, incluindo as perneiras sobre o jeans desbotado e desgastado nos locais mais interessantes. Pela jaqueta entreaberta pôde ver sua camiseta rasgada. As botas gastas pareciam pertencer a um homem que trabalhasse com elas. Exceto pelas correntes. Não imaginava o motivo de ele estar usando aquele adorno, mas na verdade era sexy. Muito sexy.

— Obrigada — disse enquanto dava um passo para o lado, evitando ficar entre ele e a escada. — Não sei o que teria feito se você não tivesse aparecido. — Em seus óculos espelhados ela pôde ver a própria imagem do seu rosto vermelho e o cabelo embaraçado pelo vento. Limpou as mãos no short. — O quê... — Ela falou sem jeito. Poderia não ser ele. Na certa, o excesso de sol e ar puro deviam ter embaralhado suas ideias. Resolveu agir com

bastante naturalidade. — Posso ajudá-lo em alguma coisa?

— Acho que as coisas estão meio invertidas aqui. Foi você quem deixou uma mensagem de voz para mim. Algo sobre um projeto de construção. — Então, ele tirou os óculos escuros e o capacete.

Oh, Deus! Eu desejaria que fosse qualquer um menos você, Olivia pensou.

Ele tirou as luvas, dedo por dedo, enquanto a olhava. Depois, piscou para ela.

— Eu já... nós nos conhecemos?

Olivia achou que ele só podia estar brincando. Será que não sabia mesmo?

Como Olivia não respondeu, ele se virou e, com muita habilidade, hasteou a bandeira. Imediatamente, a bandeira tremulou ao vento e se encheu como uma vela de barco.

Olivia ficou paralisada ao observá-lo. Parou de pensar e até de respirar. Bastou ver aqueles olhos sedutores para viajar no tempo, e os anos voaram como as folhas de um calendário. Ela não estava

olhando para um aventureiro. Olhava para o rosto de um homem, mas naqueles olhos azuis ela via o garoto que ele fora um dia.

E não era um garoto qualquer. Mas era o garoto. Seu primeiro amor, aquele que a fizera dar os primeiros grandes passos de sua adolescência problemática e sofrida. O primeiro que amara... o

primeiro que beijara... o primeiro que... o primeiro que partira seu coração.

Olivia sentiu seu corpo todo incendiar e corou. Deve ter sido por isso que inventaram o termo “chama antiga”. Alguém sempre acabava se queimando.

— Connor Davis — disse ela, falando alto seu nome pela primeira vez em nove anos. — Que prazer encontrá-lo aqui. — E por dentro ela pensava em morrer. Deixe-me morrer aqui e agora e nunca mais pedirei nada enquanto viver.

— O próprio.

Como se ela pudesse esquecer! Diante dela estava o menino que ele fora, agora na forma de um homem. Devia ter 28 anos de idade agora, já que ela estava com 27. O garoto espichado agora

era um homem alto e forte. Seu sorriso convencido e olhos brilhantes eram os mesmos, mas o maxilar parecia menos tenso, devido à barba por fazer. Olivia piscou ao notar que ele ainda usava um pequeno brinco numa das orelhas. Ela mesma o colocara, cerca de 13 anos atrás.

— Então você é... — ele conferiu a palma de sua mão esquerda onde parecia ter escrito alguma coisa com tinta roxa. — Você é Olive Bellamy?

— Olivia. — Torcia para que a reconhecesse da mesma forma como ela o reconhecera, como sendo alguém do passado, alguém importante, uma pessoa que mudou o rumo da sua vida. Meu Deus, uma pessoa que se arriscou a ser mandada de volta para casa por ter colocado um brinco na orelha dele.

— Desculpe-me, Olivia. — Connor olhou para ela de um jeito tipicamente masculino. E não entendeu por que ela se sentiu ultrajada. — Não tinha papel para anotar quando peguei a mensagem — ele explicou, e mostrou a mão com tinta roxa. — Nós já nos conhecemos?

Ela deu uma risada forçada.

— Você está gozando com a minha cara? Isto é uma piada? — Teria ela mudado tanto assim? Tudo bem, já tinham se passado quase dez anos. Ela emagrecera horrores, tinha clareado o cabelo castanho

e trocado os óculos por lentes de contato. Mesmo assim...

Ele a encarava. Perdido.

— Eu deveria conhecer você?

Ela cruzou os braços, olhou para ele e pensou na frase que ele recordaria por ter sido uma das primeiras mentiras que disseram um para o outro.

— Sou sua nova melhor amiga — ela disse e viu aquele rosto bonito e bronzeado perder a cor.

Os lindos olhos azuis dele ficaram apertados para em seguida se arregalarem de espanto. Seu pomo-de-Adão subiu e desceu, então ele pigarreou, antes de falar.

— Caramba — disse baixinho. E inconscientemente levou a mão até o brinco. — Lolly?

 

CÓDIGO DE CONDUTA DO ACAMPAMENTO

KIOGA

Todo mundo deve participar de todas as atividades planejadas conforme o descrito na programação do acampamento e estarem vestidos de acordo com o regulamento. Os monitores são responsáveis por assegurar a participação dos acampantes em todas as sessões das atividades programadas, exceto quando forem dispensados pelo setor médico ou pelo diretor. 

 

Capítulo Um 

Verão de 1991

 

– Lolly. — O garoto alto e magricelo que vinha caminhando atrás dela falou pela primeira vez desde que tinham saído da sede do acampamento de férias. — Que tipo de nome imbecil é esse, Lolly?

— Do tipo que está estampado nas costas da minha camiseta

— ela disse, trazendo o rabo-de-cavalo de cabelos castanhos para a frente. Insatisfeita, ela se sentiu corar. Droga, ele era só um garoto bobo e tudo que havia feito era uma simples pergunta.

Errado, pensou ela, como se ouvisse um alarme de programa de auditório. Ele era o garoto mais bonitinho do alojamento Eagle, de meninos entre 12 e 14 anos. E não foi uma simples pergunta,

mas um comentário mordaz, para provocá-la. E ainda por cima, ele falou imbecil. Lolly detestava admitir, mas não gostava que xingassem.

Sempre que experimentava dizer alguma palavra insultuosa, ela gaguejava e corava, e todos notavam como ela era certinha.