CAPÍTULO OITO
Bethany sentia como se estivesse pisando em cacos de vidro
enquanto caminhava para a mesa da recepcionista
no banco Rinaldi. Ela se hospedara em um hotel após
o longo voo, mas levara um tempo mínimo para se
arrumar antes de tomar um táxi até o distrito financeiro
de Milão.
Ela não podia acreditar que voltara à Itália.
Quando deixara Roma sete semanas antes, sofria
tanto que pensara nunca mais querer voltar. A
compaixão por André e pelo que ele deveria ter
passado a atormentava.
Ela viera pedir perdão e contar que
estava grávida. O que fizesse depois
era sua escolha. Ela precisava vê-lo, mas temia que
ele a rejeitasse tão friamente quanto ela o fizera.
Quando ela disse seu nome à recepcionista, a mulher
a fitou com uma expressão especulativa, enquanto
ligava para o assistente de André. Falou em italiano
rápido e depois desligou o telefone.
– Signor Mercado logo estará aqui para escoltá-la
ao escritório do Signor di Rinaldi.
Bethany não conseguiu acreditar em como estava sendo fácil
chegar até ele dessa vez, considerando que antes a mulher nem
quisera lhe permitir acesso à caixa de mensagens de
André. Talvez fosse uma recepcionista diferente.
Um jovem vestindo um terno eco uma expressão
dura tocou seu ombro menos de cinco minutos depois.
– Senhorita Hayden?
– Sim.
– O Signor Rinaldi disse que a receberá em seu
escritório.
– Ele sabe que eu estou aqui?
– Sim.
Agora, até mesmo o tom do homem era
duro.
– Siga-me, por favor.
Ela o fez, o coração batendo com rapidez mortal
durante o longo trajeto de elevador até o último andar.
André estava no telefone quando ela foi introduzida
em seu escritório, um enorme cômodo belamente
decorado com madeiras escuras e obras de arte
clássicas nas paredes. Ela mordeu o lábio, olhando
em volta. A vida dele era tão diferente da sua e ainda
assim eles estavam ligados. Será que ele se lembraria disso,
ou somente de sua crueldade induzida pelo medo?
Ele desligou o telefone e se levantou.
– Bethany. A sua mãe lhe pagou outra viagem à
Itália?
Ela balançou a cabeça, negando, o coração sedento
bebendo a presença dele em grandes goles.
– Eu vim porque precisava vê-lo.
– Na última vez em que nos falamos, você deixou
claro que não queria me ver novamente.
– Eu estava errada. – A garganta de Bethany se
fechou com as lágrimas que não conseguia suportar
verter na frente dele. Precisou respirar profundamente
por vários segundos até poder falar novamente
sem expô-lo à carga de sua dor.
– Eu sinto muito. Eu fui tão estúpida, e compreenderei
se você não quiser me ver nunca mais, mas eu
o amo, preciso de você e passarei o resto de minha
vida corrigindo o fato de tê-lo decepcionado se você
somente me der mais uma chance.
Com a expressão impávida, ele não disse nada.
– Eu não sabia – ela explicou com uma voz estrangulada
– sobre seu irmão. Eu pensei que você
havia ido a Nova York a negócios e me deixado para
trás sem uma palavra. Quando você me disse que
seu assistente não havia deixado um bilhete, eu pensei
que não era suficientemente importante para que você
deixasse um aviso pessoalmente. Doeu.
Ela fez uma pausa, colocando os pensamentos em
ordem, tentando não perder o foco.
– Eu sei que se eu tivesse confiado em você,
teria evitado muita dor para nós dois, mas meu coração
já lhe pertencia. Pensei que se o visse novamente,
lhe pertenceria ainda mais, e você poderia me destruir
com o que eu pensei que fosse sua indiferença.
Ela procurou encontrar em seu rosto algum traço de seu pensamento, mas ele nem piscou.
– André?
Seu maxilar se contraiu, mas ele não disse nada e
ela abaixou a cabeça em desespero. Como poderia
contar sobre o bebê agora? Talvez devesse somente
escrever para ele. Não eram exatamente notícias
que o alegrassem e ela não tinha certeza de que poderia
lidar com o horror em sua expressão quando
soubesse que teria um filho seu. Voltou-se para
ir embora.
– Você não sabia sobre Rico?
Ela parou no meio do caminho.
– Não.
– Estava nos jornais.
Ele estava logo atrás dela, apesar de ela não tê-lo
ouvido se mover.
– Eu não leio jornais.
– Quando você descobriu isso?
– Há três dias.
– Você veio muito rápido.
– Mais ainda assim tarde demais.
A mão dele tocou em seu ombro e ele a voltou para si.
– Tarde demais para o quê?
Ela o fitou, o amor quase a sufocando com sua
força.
– Para apoiá-lo quando você precisou de mim.
– Eu sempre preciso de você.
Ela não deveria ter ouvido bem.
– Você disse que me amava. – Os olhos dele
perfuravam os dela como se testando a verdade em
suas palavras.
Incapaz de acreditar que podia tocá-lo, pousou as mãos sobre sua camisa.
– Eu realmente o amo, tanto que tenho medo.
– E esse medo causou sua recusa?
Ela não conseguiu lutar mais contra as lágrimas.
Alívio e esperança a atravessaram ao mesmo tempo.
– Sim.
– Nós tivemos pouco tempo juntos, não o suficiente
para alicerçar o que representamos um para o outro.
Ela engoliu em seco e assentiu, incapaz de falar
por causa do nó de emoção que a fazia engasgar.
– Eu também a amo, amore mio.
– Mesmo depois de eu o ter rejeitado?
Os lábios dele lhe responderam e ela sentira tanta
falta dessa sensação que pegou fogo com um único
beijo. Descobriu que ele tinha um pequeno apartamento
cuja entrada era atrás do escritório quando
ele a levou para lá e fez amor com ela com desespero.
Ela enroscou em seu corpo quente e duro, tão feliz que
quase passava mal. Ele a perdoara.
Ele a amava. Ele ficaria feliz ao saber do bebê. Ela
tinha certeza disso.
– Dessa vez vamos nos casar o mais rápido possível.
Sem mais mal-entendidos.
– Eu gostaria muito disso, mas há algo que preciso
dizer.
Acariciou os pelos em seu peito, feliz por poder fazer isso novamente.
Ele levantou o seu queixo.
– Você está nervosa. O que é?
Ela engoliu em seco. E se ele não confiasse nela,
assim como ela não confiara nele? E se ele pensasse
que o bebê não era dele? E se ele pensasse que ela o
engravidara de propósito? Recusando-se a deixar essas
possibilidades aterradoras a intimidarem, inspirou
profundamente.
– Eu estou grávida.
Ele ficou quieto, e ela não tinha certeza nem mesmo
se ele estava respirando.
– Prego?
– Eu carrego o seu filho em meu ventre.
– Foi por isso que voltou para mim?
Ela não podia saber o que ele pensava, mas balançou
a cabeça.
– Não. Eu quero dizer, sim.
Não queria mentir para ele, nem mesmo por omissão.
– Eu planejava vir quando fiquei grávida, mas
quando descobri sobre o seu irmão, nada me teria
impedido mesmo se eu não estivesse grávida. Na verdade,
se eu tivesse sabido como entrar em contato com
você em Nova York, eu duvido que tivesse ficado longe
de qualquer jeito. Eu estava morrendo aos poucos
por ficar longe de você.
– A separação estava me matando também. – Ele
olhou para sua barriga ainda plana e a tocou com
reverência.
– Mio bambino está aí.
– Você está feliz?
Ele olhou para ela e a alegria que brilhava em seus
olhos escuros era tão intensa que trouxe lágrimas aos
dela.
– Você duvida?
– Eu o amo, André. Sempre o amarei.
– Eu a amo, minha Bethany, até que a morte nos separe.
***
Eles se casaram em uma pequena e secreta cerimônia
uma semana mais tarde, mas quando a família
de André descobriu, sua mãe insistiu que eles recebessem
uma bênção dupla, junto com Rico e sua esposa,
Gianna. Signora di Rinaldi até mesmo mandou vir da
Grécia uma grinalda que combinava com a de Gianna
para que Bethany usasse. Os pais dela vieram para a
cerimônia e a celebração durou até tarde da noite,
depois das duas noivas anunciarem a dupla gravidez.
Gianna e Bethany concordaram que os homens
Rinaldi eram excelentes maridos, por serem
fáceis de amar e capazes retribuir esse amor.
FIM
|