CAPÍTULO DOIS
– Eu não sou exatamente uma Miss América, mas
poucas mulheres são.
Será que ela estava querendo elogios? André recuou
um pouco e deixou que seu olhar viajasse vagarosamente
por seu corpo, dos pés à cabeça.
– Eu não me importaria em vê-la em um vestido de
baile. É parte do concurso, não?
Ele passou dedo pelo queixo, observando-a com
olhos de especialista.
– Ou talvez em um maiô...
– O quê?
André quase riu alto com a expressão cômica de
descrença no rosto adorável da mulher. Não o fez, é
claro. Ela já parecia pronta para fugir. A timidez irradiava
dela e um raro instinto protetor surgiu dentro dele como uma onda quebrando
sobre a proa de um barco.
– Eu tenho certeza de que isso pode ser resolvido
se você a convidar para almoçar. Leve-a a algum
lugar bem elegante e ela poderá se vestir para você.
Então, talvez amanhã, convide-a para ir a algum
lugar fora da cidade, algum lugar bom para nadar. –
A sugestão direta de Antonio ferveu no pensamento
de André.
O vestido sexy de verão revelava o tipo de curvas
que povoavam suas fantasias noturnas. Só de imaginá-la
em um biquíni minúsculo enquanto
nadassem era suficiente para fazer com que suas
calças ficassem extremamente justas em alguns
lugares.
– Mas eu... Isso não é necessário. Você não deveria... – Ela parecia lutar contra a própria língua para fazer as palavras saírem.
– Antonio, você a está deixando sem graça – André o advertiu.
– Não seja estúpido – O amigo de seu
pai revidou, emitindo um som de desagrado. – Rapaz, eu o estou ajudando aqui. Você não está
vendo? Quando eu era jovem, jamais precisaria de
que um velho sugerisse que eu chamasse uma moça
tão bonita para sair. Pode perguntar ao seu pai.
Antes que André pudesse replicar, ela já havia se afastado, com um sorriso falso no rosto.
– É melhor eu ir embora. – Bethany anunciou.
– Você tem algum plano? – Ele foi em sua direção,
diminuindo a pequena distância que ela impusera entre
seus corpos, ansioso por uma intimidade que chegou a surpreendê-lo.
– Você vai se encontrar com alguém?
– Bem... Não – ela admitiu, os olhos cinzentos bem
abertos. – Eu não tenho planos específicos, mas gostaria
de ver os fóruns. Se encontrá-los for tão difícil
quanto achar a Capela Sistina, eu provavelmente me
perderei de novo. Você pensa que seria impossível,
não é? Quero dizer, aposto que qualquer um em Roma
sabe onde estão, mas eu já consegui pegar o ônibus
errado duas vezes.
Ela começou a se dirigir novamente à porta, com uma
expressão de sofrimento no rosto.
– Se eu não for agora, não conseguirei chegar antes
do fim do horário de visitas guiadas.
Ele se adiantou e pegou seu braço antes que ela
pudesse bater na mesa ocupada logo atrás.
– Cuidado!
Bethany olhou para trás, viu a mesa e voltou o olhar
novamente para ele, enrubescendo.
– Eu não vi… Oh, obrigada.
Ele passou as mãos por suas costas, sem compreender
a necessidade que tinha de tocá-la, apesar
de alimentar esse desejo.
– Você quer ver os fóruns?
– Sim. – Ela suspirou, o rubor em suas faces se
intensificando. – Há tanto que eu quero ver, mas tenho
levado horas todos os dias para encontrar os lugares.
Eu espero não estar parecendo uma idiota.
– É uma grande cidade. Perder-se por aqui é fácil.
– Eu aposto que você nunca se perde.
– Claro que não.
Ele deu uma risada maliciosa.
– Mas eu tenho a vantagem de conhecer a cidade
bastante bem, apesar de não viver aqui.
Esperou para ver se ela aproveitaria a deixa e lhe
perguntaria o caminho para o fórum, ou melhor, pedisse
a ele que o mostrasse.
– Eu poderia viver aqui por vários anos e ainda
assim me perder, eu acho. Kurt dizia que eu podia
dar uma volta no banheiro e esquecer em que direção
ir quando tivesse que sair.
– Quem é Kurt?
A ideia de outro homem em sua vida o contrariou
mais do que deveria, considerando que nem mesmo
sabia seu nome.
– Meu ex-marido.
– Ah. Um homem tolo o suficiente para deixá-la ir
embora não deve ter opiniões de que valha a pena se
lembrar.
Ela sorriu e balançou a cabeça como o fizera antes,
quando Antonio dissera que era bonita.
– Minha mãe diz a mesma coisa.
– Ela é uma mulher inteligente.
– Sim. Ela não se perderia tentando achar os pontos turísticos de Roma. Ela que sugeriu que viesse com uma excursão. – Franziu as sobrancelhas, apagando as linhas doces de seu rosto. – Talvez eu devesse ter feito isso.
– Eu acho que não. Se você tivesse vindo com um
grupo, eu não a teria encontrado.
– Oh... – Ela o fitou como se tentasse compreender
suas palavras.
Já que seu inglês era excelente, ele não pensou que
Tivesse falado algo errado.
– Eu a levarei ao fórum.
Os olhos de Bethany se acenderam e ficaram confusos
ao olhar para Antonio.
– Mas...
– Está bem, signorina. Esse é André di Rinaldi. É
um bom homem. Eu conheço seu pai desde que
éramos meninos e jogávamos no mesmo time de
futebol. Ele vem frequentemente a Roma a negócios
e visita esse velho aqui.
Ela não parecia totalmente tranquila.
– Eu não disse que iria me perder com o intuito que você se
oferecesse para me levar – deixou escapar.
– Mas por que não? Você não tem astúcia, menina? – perguntou Antonio, parecendo escandalizado e se divertindo ao mesmo tempo, enquanto seus olhos diziam a André que aquela mulher era alguém especial.
Mas André já havia percebido isso sozinho.
– Eu não teria oferecido se não quisesse levá-la.
– Você tem certeza de que tem tempo? – perguntou ela.
– Não tenho compromissos hoje. Isso não é normal para mim. Deve ser a providência divina.
Ela o fitou por vários segundos, mordendo o lábio
inferior, os olhos nebulosos de incerteza. Ele esperava,
não querendo pressioná-la, mas sabendo que se ela
recusasse a oferta, ele provavelmente faria o impossível para
descobrir onde se hospedava e arquitetar outro encontro.
Nunca sentira essa compulsão de estar com
uma mulher e, se gostava dela, não estava nem um
pouco satisfeito com o pouco controle que sentia sobre
seus próprios desejos. Também havia uma pequena
parte dele, a do homem cínico que fora criado na abundância
e que estava acostumado com pessoas buscando uma brecha para se aproveitar
dele, que se perguntava se alguma mulher
poderia ser tão sincera quanto esta parecia ser.
Porém, não permitiu que nenhuma dessas emoções conflitantes
transparecessem no rosto.
Com um leve suspiro, ela estendeu a mão, encurtando ainda mais o
pequeno espaço entre eles.
– Meu nome é Bethany Hayden e eu lhe seria muito
grata se pudesse me ajudar a encontrar os fóruns
para que eu não me perca novamente.
Cedendo à excitação que sentia desde que ela se
jogara em seus braços na primeira vez, ele puxou o
corpo de Bethany de encontro ao dele e inclinou-se
para beijar suas faces. A pele dela era macia e tinha
o perfume de flores de primavera e sol quente.
Ela ficou suspensa em seus braços, sem fazer força
alguma para ser liberada, os lábios abertos como se
esperando por um beijo muito mais íntimo. Foi preciso
fazer uso de todo o seu autocontrole para não beijá-la.
– Prazer em conhecê-la, Bethany.
* * *
Bethany não conseguia juntar duas sílabas para lhe
responder depois de ele quase a ter beijado.
Bem, ele a beijara, mas não na boca. Quem diria
que lábios tocando bochechas podiam causar reações
tão inquietantes em lugares femininos? Ainda bem
que seu vestido era de tecido opaco, ou a dolorosa
tensão de seus mamilos seria mais que um pequeno
desconforto físico. Seria totalmente embaraçosa.
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