CAPÍTULO QUATRO
Mark pensou em revelar a Jodie apenas parte da verdade, mas ele era um homem íntegro e, naquele momento, a integridade exigia toda a história de por que e como se tornara o presidente executivo da Bradshaw International.
Não sabia bem explicar o porquê, mas a opinião de Jodie Gallagher era muito importante para ele. Tanto que se viu se abrindo de tal maneira que poucas pessoas na Bradshaw International já haviam tido oportunidade de presenciar.
— Sou um presidente relutante — disse. — Administrar esta empresa não é algo que eu quisesse fazer.
Se a franqueza dele a surpreendeu, ela nada demonstrou.
— Como pode não querer tudo isso? — Jodie perguntou, apontando com a mão aberta para o luxuoso escritório.
— Tantas pessoas trabalham a vida inteira sem nunca chegar a este ponto.
Mark passou a mão pelo cabelo, frustrado por ela não conseguir entender seu ponto de vista.
— Jamais pensei que você fosse o tipo de pessoa que se deixa fascinar pelas armadilhas do sucesso.
Ela se ressentiu do comentário.
— E não sou. Mas dou o devido valor às pessoas que trabalharam duro para chegar aonde chegaram. Inúmeras pessoas, aqui mesmo nesta companhia, trocariam de lugar com você em um piscar de olhos.
— Incluindo você?
Como ela não se dignou a responder, ele prosseguiu:
— Não sou todo mundo, nem inúmeras pessoas. Não me sinto confortável aqui. Isso — disse, segurando um vaso extremamente valioso sobre uma mesinha perto da moça — não tem nada a ver comigo.
Jodie fez menção de tomar o vaso das mãos dele mas, distraidamente, Mark o ajeitou sobre a mesa.
— Muito é exigido de quem tanto possui — ela disse.
Ele se virou para ela.
— Exatamente. E estou desperdiçando os outros talentos que possuo administrando esta empresa.
Jodie sacudiu a cabeça.
— Então vai virar tantas vidas de pernas para o ar só para não se ver mais entediado. Isso não é justo.
— Está analisando a situação de sua perspectiva. De onde estou, a vista não é tão bonita assim.
Ele ficou em silêncio por um bom tempo. O silêncio não fez Jodie se sentir desconfortável. Para falar a verdade, ela se viu fascinada pela conversa. Uma conversa que jamais, nem mesmo nos sonhos mais ousados, pensou que teria.
Ele lhe ofereceu uma bebida. Após Jodie aceitar um copo de suco de frutas, Mark dirigiu-se para a janela. Embora continuasse falando com ela, permaneceu admirando a vista.
— A verdade é que já faz algum tempo que estamos perdendo dinheiro. Não com a venda de produtos, que tem permanecido estável, mas ao perder novas oportunidades de crescimento. Isso pode ser revertido — afirmou, virando-se novamente para ela. Assentindo, ele concordou com a observação dela. — Admito estar entediado. Mas também tenho que administrar da melhor maneira possível o que me foi confiado.
— Você não quer ser como o servo na Bíblia que enterra seus talentos. Eu me sinto da mesma maneira.
Por um instante, Mark pareceu estar surpreso. Depois, lentamente, um sorriso tomou conta de seu rosto.
— Você fala como se fosse uma mulher de fé.
— Fala como se não acreditasse ser possível combinar fé e negócios.
— Os dois podem ser compatíveis — disse. — Sou testemunha disso.
Por fim, encontrando algo em que concordavam, eles passaram os 45 minutos seguintes conversando sobre como fazer da Bradshaw International uma empresa melhor.
Mark estava explicando o restante das futuras atribuições de Jodie, quando de cima de sua mesa escutaram uma melodia animada.
— Oops. — Ele se levantou. — Meu alarme.
— Você tem um alarme cujo toque parece um solo de saxofone?
Ele assentiu e desligou o aparelho.
— Foi feito sob encomenda.
Jodie o viu olhar para o relógio.
— Quer falar de mais alguma coisa?
— Agora não — ele respondeu. — Que tal encerrarmos por hoje?
— Mal passa de 15h30. Tenho algumas coisas que não deveria deixar de fazer no departamento de marketing.
Ele a acompanhou até a porta, apertou sua mão de modo formal e se despediu.
— Não se preocupe com Ethan. Se ele lhe causar algum problema, é só me avisar.
Jodie não acreditava que fosse ser necessário.
* * *
Enquanto considerava o que havia feito naquele dia, Mark se esforçava para achar uma explicação plausível para seu comportamento na reunião e sua franqueza com Jodie, em seguida. Por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma. Jodie Gallagher tinha um futuro promissor na Bradshaw International. Naquela tarde, deixara bem claro que não tinha medo de dizer o que pensava.
E para implementar a estrutura organizacional que tinha em mente, precisaria estar em sintonia com a maneira de pensar e a criatividade dos melhores e mais promissores funcionários da empresa. Não era culpa dele se um deles possuía pernas fantásticas e um sorriso estonteante.
— Isso não o torna um libertino irresponsável — murmurou ao pegar sua pasta.
Chegara quase a se declarar em público para ela. A verdade era que estivera intrigado com a ética de trabalho, o entusiasmo dela... e, bem, é, o sorriso, desde o instante em que vira a foto de Jodie na casa da Sra. G.
Eunice Gallagher era a secretária paroquial da Community Christian Church, que Mark freqüentava desde seu retorno a Wayside. O falso infarto do Velho o trouxera para casa.
Procurando um herdeiro responsável entre os netos, C. B. Bradshaw mandou a secretária avisar à família que O Velho havia sofrido um grave infarto. Dois dos netos ligaram demonstrando preocupação, os outros nem mesmo retornaram a ligação. Mas quem foi que veio correndo na mesma hora? Mark, o trouxa. Os outros, seus primos, ou não davam a mínima, ou não estavam dispostos a interromper as próprias rotinas pelo homem que tornara possível suas vidas de ócio.
Dissera a Jodie que estava entediado, e era verdade. As equipes que montara pareciam aleatórias, mas passara um bocado de tempo estudando a listagem dos funcionários para melhor combiná-los. Estava empolgado com a reorganização e a possibilidade de elevar a empresa a um novo patamar.
Contudo, por ora, tinha uma tarefa de igual importância.
Do lado de fora do escritório ele olhou para ambos os lados do corredor, depois correu para o elevador de serviço — sua rota de fuga secreta.
Ele admitia que o trabalho tinha seus momentos. Entre eles, suas escapulidas do serviço um pouco mais cedo — ser o chefe precisava ter seus benefícios — e ver Jodie Gallagher.
— Patético, Bradshaw — disse para si mesmo.
Enquanto o elevador descia para a garagem, Mark tirou a gravata cara e a enfiou no bolso do paletó. A seguir, afrouxou o colarinho da camisa social branca. Quando chegou à caminhonete velha — estacionada ao lado de uma verdadeira frota de carros luxuosos pertencentes aos executivos da empresa —, a aparência de Mark havia se transformado.
Como já estava atrasado, não havia muito o que fazer em relação à calça social. Puxando a camisa para fora das calças, passou a mão pelo cabelo.
Jogando o paletó e a pasta de couro atrás do banco do motorista, ele trocou o sapato fechado por tênis surrados, que já haviam testemunhado dias melhores. Os tênis, assim como a caminhonete, traziam seu selo de aprovação pessoal. Além de ser prática e funcional, Mark adorava a caminhonete porque ela enlouquecia O Velho.
Poucos minutos depois, ele estacionou atrás do The Latte Lounge.
— Ei, Mark. Por que demorou tanto, cara? Estamos desperdiçando a luz do dia.
— Desculpe. Fiquei preso no trabalho.
Neville Jackson olhou para ele.
— Você não parece ser o rico e poderoso cabeça de um conglomerado.
Mark sorriu para o amigo de longa data, com seu cabelo trançado e sua vestimenta hippie.
— E você não parece ser Ph.D. em planejamento urbano e criminologia.
— Touché, meu amigo.
— Está todo mundo aqui?
— Só aguardando você.
Vinte minutos mais tarde, com Neville na bateria e Mark Bradshaw no saxofone, a banda do The Latte Lounge deu início ao ensaio. |