CAPÍTULO DOIS
Subitamente, a perspectiva de não ter quem a acompanhasse ao evento de gala não parecia tão terrível para Jodie. Ela não iria precisar de um acompanhante porque, se respondesse com sinceridade à pergunta de Mark, a respeito do relatório de seu supervisor, não teria mais um emprego. Ethan, o chefe em questão, a despediria ali mesmo. Caso mentisse, sua consciência não a deixaria em paz.
Jodie abriu a boca. Fechou-a. Abriu-a novamente, depois olhou para o bloco de anotações.
— O relatório foi preparado com os melhores valores que se encontravam disponíveis para o nosso departamento.
Não só é bonita, pensou Mark, também é diplomática. Achava isso admirável em uma mulher.
Ele se endireitou, cruzou os braços sobre o peito e enfrentou o olhar de cada um dos vice-presidentes, agora se mexendo desconfortavelmente em suas cadeiras.
— Pessoal — disse. — Faz quase um ano que estou à frente da Bradshaw International. Passei esse tempo todo assinalando nossos pontos positivos e negativos. A conclusão a que cheguei não foi muito reconfortante, visto que achei muitos pontos negativos e quase nenhum positivo.
Jodie percebeu que teria de preparar seu currículo muito antes do que pensava. Se tivesse uma empresa, não a administraria do mesmo modo que Mark Bradshaw estava fazendo com a dele — como um ditador.
* * *
Chegando aonde queria, Mark começou a andar de um lado para o outro na área atrás de sua poltrona, parando de vez em quando para fitar os olhares constantes e preocupados dos funcionários. Alguns dos assistentes sentados ao redor da mesa pareciam intrigados, enquanto outros, como os chefes, estampavam no rosto aquela expressão de pânico de um cervo iluminado pelos faróis de um carro em movimento, o que, a longo prazo, não parecia ser um bom presságio.
Já Jodie Gallagher aparentava estar calma e segura. Seu cabelo escuro brilhava e seu olhar seguia Mark quando ele se movia.
— Quando meu avô fundou esta empresa, ele o fez com uma visão, um plano que estava adiante do seu próprio tempo — disse Mark. — Muitos o chamaram de louco. Ninguém, nem mesmo os dois relutantes investidores que ele conseguiu como suporte financeiro, acreditava que ele poderia ser bem-sucedido no que queria fazer.
Ele caminhou até a enorme janela e olhou para o pátio. Em pleno fevereiro, frio como era o mês, não havia muitas flores lá embaixo. Mas, em alguns meses, uma fonte jorrando água avivaria as cores que cercavam as estátuas do jardim.
— Hoje é um novo dia — Mark disse, tanto para si mesmo quanto para as pessoas no recinto. Olhando para os diretores, deixou escapar algo que há muito estava no seu coração. — A partir de agora, o jogo é outro.
— E que jogo exatamente é esse? — arriscou perguntar um dos vice-presidentes.
As palavras estavam na ponta da língua. Ele queria despedir cada um deles. Suas idéias ultrapassadas e abordagens antiquadas já quase haviam levado a empresa à falência. Mark sabia que o futuro repousava em uma equipe administrativa disposta a ultrapassar todos os limites. Nada tinha a ver com idade, mas sim com visão.
Stanley Grace, que já fazia parte da Bradshaw International há quase quatro décadas, era um exemplo clássico. Stanley possuía uma das mentes mais aguçadas e criativas da indústria. Ele manteve seu departamento em destaque, regularmente obtendo resultados positivos, apesar dos departamentos como o de Ethan Lamb. O que alguém como Stanley poderia fazer com o devido apoio de todos?
Estava na hora de ver quem estava à altura de um novo desafio.
— Uma nova maneira de fazer negócios. — Mark abriu sua pasta e pegou uma pilha de papéis grampeados. Pensara muito a respeito daquilo. — Criei seis equipes. Cada equipe tem duas semanas para inventar uma nova abordagem no sentido de não apenas aumentar nossa parcela no mercado, mas também mudar a forma como fazemos negócios.
— Isso é altamente irregular — disse Ethan. — Meu departamento tem sido...
— A partir de hoje, todas as seções e departamentos vão ser revistos. Vou reorganizar a empresa. E quero nomear para minha assistente pessoal nesta empreitada Jodie Gallagher.
* * *
Jodie ficou de queixo caído.
Nikki a cutucou e disse:
— Mandou bem, menina.
Com duas bombas jogadas no seu colo em menos de 30 minutos, Jodie já não tinha certeza se fora uma boa idéia sair da cama naquela manhã. Em questão de minutos ela oscilara entre correr o risco de perder o emprego e receber a oferta do emprego de seus sonhos.
Em termos.
Trabalhar com o presidente da Bradshaw International era o tipo de impulso na carreira com que os executivos menos graduados sonhavam. A melhor parte de ser o braço direito de Ethan era poder ver Mark Bradshaw nessas reuniões. Ela alimentava algumas idéias de como melhorar a Bradshaw International, algumas das quais até expusera a Ethan — sem sucesso.
Trabalhar com Mark Bradshaw caía no departamento de “Péssimas Idéias”. No departamento de “Péssimas Idéias Mesmo”. Como poderia trabalhar para um homem por quem era gamada desde o primeiro instante em que o vira?
Queria subir na empresa. Mas, assim? Ela praticamente desmoronava só de olhar para Mark. Como poderia fazer um bom trabalho trabalhando para ele? Era melhor ficar onde estava.
Mark a fitou nos olhos, depois piscou, quando começou a distribuir as folhas com as novas atribuições.
— O que quer dizer com: mudar a forma como fazemos negócios? — alguém perguntou.
— Exatamente isso — Mark respondeu, quando os funcionários começaram a ler os memorandos.
Exclamações de surpresa foram ouvidas quando perceberam os grupos que seriam formados.
Jodie recebeu uma das folhas de Nikki e tentou ver sentido no que lia. Sua cabeça ainda estava girando devido ao comunicado de Mark.
— Respire, menina — sussurrou Nikki.
Jodie fitou a amiga, assentiu e respirou fundo.
As palavras no papel começaram a entrar em foco, e a moça percebeu porque elas estavam causando tanta comoção. Ele, deliberadamente, misturara pensadores conservadores com vanguardistas, combinara rivais entre si, só para ver que tipo de opções criativas eles poderiam apresentar.
O burburinho, em grande parte oriundo do círculo externo, começou a ficar mais alto.
— Isso é altamente irregular — Jodie escutou alguém dizer.
— Escute bem, pessoal — Mark disse, tirando o paletó. Pelo caimento, o terno parecia ter sido feito sob medida para ele. Mas, de alguma forma, não parecia se adequar à sua personalidade. Ele jogou o paletó na poltrona atrás e enrolou as mangas da camisa. — Nada, e eu realmente quero dizer nada, é intocável. Cada um de vocês tem um fluxograma com a atual estrutura da organização. Modifiquem-na. Façam com que ela se encaixe no século XXI. Tornem-na relevante para os consumidores de hoje em dia.
— Se C. B. ainda estivesse à frente da empresa...
Os frios olhos azuis de Mark se fixaram no detrator.
— Meu avô não está à frente da empresa. Eu estou. Qualquer um que não queira participar dessa proposta é mais que bem-vindo a se desligar da empresa — acrescentou. — Oferecerei um salário de indenização para cada ano de serviço. Isso vale para todo mundo nesta sala. Quem aceitar pode pegar aqui os devidos formulários. Preencha-os e devolva-os à minha mesa até o fim do expediente. Quanto ao resto, nos reuniremos de novo em duas semanas, para analisar os planos elaborados pelos senhores. Na ocasião, compartilharei algumas de minhas próprias idéias. — Ele olhou para a mesa dos assistentes e para o círculo externo, composto, de acordo com as suspeitas de Jodie, em sua maioria de futuros ex-vice-presidentes. — Alguma dúvida?
Ninguém disse uma palavra.
— Ótimo. — Mark sorriu, mas o gesto não foi visto como sendo muito amigável nem sincero. — Muito bem. A reunião está encerrada.
Ao exalar com força o ar dos pulmões, Jodie percebeu que, inconscientemente, estivera prendendo a respiração.
Ele pegou o paletó e a pasta de couro.
— Srta. Gallagher, já teve alguns minutos para considerar minha proposta. Caso queira o novo emprego, venha comigo. Temos trabalho a fazer. Caso contrário, a senhorita foi designada para a equipe número 4.
Jodie engoliu em seco. Fitou o papel com as escalações de cada equipe. Ethan estava na sua equipe. Olhou com incerteza para ele. Será que esta era a resposta para suas preces? Encurralada, de costas para a parede, forçada a tomar numa fração de segundos a decisão que poderia afetar sua carreira.
Deus, diga-me o que fazer.
— Srta. Gallagher?
Naquele exato instante, Jodie percebeu que precisava escolher. Avançar ou recuar. O terreno era incerto em ambas as direções. Pensou que deve ter sido assim que Moisés e os Israelitas se sentiram: com o Mar Vermelho e a morte certa à sua frente, e o exército do Faraó se aproximando por trás.
Sem ter para onde correr, exatamente como aquele povo antigo, Jodie rezou com fervor por auxílio. Contudo, trechos de suas preces anteriores lhe ecoaram pela cabeça. Senhor, preciso de uma mudança no trabalho. Senhor, queria tanto que ele me notasse.
Em casa e na igreja, rezara por uma nova oportunidade para se tornar necessária. E, tinha de admitir, rezara para que Mark Bradshaw a notasse. E, agora que ele o fizera, não tinha mais tanta certeza de que queria esta prece em particular atendida. Pelo menos, não daquela maneira.
No início, Ethan fora bom para ela. Tornara-se seu mentor e lhe ensinara tudo que sabia. No mínimo, lhe devia lealdade. Não podia simplesmente dar as costas ao homem que lhe dera a chance de alcançar o sucesso, algo que muitos poucos fariam para uma pessoa da idade dela.
Na porta, Mark estava aguardando.
— Escolha, Srta. Gallagher.
Ela olhou para Ethan e depois para Mark.
— Sinto muito — disse, com sinceridade, torcendo para que ele compreendesse.
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