Susan Wiggs

Doce Melodia

POR FELICIA MASON

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CAPÍTULO UM

O tempo estava acabando para Jodie Gallagher. Faltava menos de uma semana para o baile de premiação dos funcionários e ela ainda não havia arrumado alguém para acompanhá-la. Bradshaw International Ltda. podia ser uma das empresas mais proeminentes da região, sempre conduzindo experimentos e utilizando tecnologia de última geração, mas sua liderança sempre fora sólida e tradicional. O fundador acreditava piamente nos valores familiares. De acordo com seu modo de pensar, isso significava que cada membro da equipe gerencial deveria ter uma família: uma esposa devotada, um filho, dois ou três e um cocker spaniel, ou um labrador, para sair bem na foto dos cartões de Natal.

O velho Bradshaw sempre dissera que havia bastante lugar no topo para funcionários talentosos. O único problema era que o caminho até o topo da montanha particular consistia basicamente em ruas de mão única, e não havia placas indicando retornos.

Em algum momento do futuro, Jodie pensava em ter um marido e uma família. E não apenas porque isso seria bom para sua carreira. Tinha muito amor no coração para compartilhar, mas esse amor precisava ser posto de lado enquanto ela se concentrava na própria carreira. Aparentemente, como ainda não colocara o sujeito perfeito em seu caminho, Deus parecia ter um plano semelhante para ela.

Certa vez, Jodie fizera uma lista. Seu companheiro perfeito não poderia ter mais de 1,88m, nem menos de 1,82m de altura. Deveria ter cabelos louros e olhos azuis. Sempre usaria camisetas por baixo da camisa social, e abotoaduras. Dirigiria um determinado modelo de carro, teria renda suficiente para sustentar uma família de até cinco pessoas — caso ela decidisse parar de trabalhar após o nascimento dos filhos. Teria de ter senso de humor, rir um bocado e sempre surpreendê-la com pequenos agrados para manter viva a chama do romance no relacionamento deles. Como um casal, seriam membros ativos da Igreja, participariam de trabalhos voluntários na comunidade e, é claro, viveriam felizes para sempre. Era antiquado e maravilhoso... e, aparentemente, impossível.

Sentada diante da mesa, Jodie suspirou. Já fazia um bocado de tempo que estava à procura do homem de seus sonhos, e seu relógio biológico não era a única coisa que a estava incomodando. No próximo aniversário, completaria 28 anos de idade. Por mais que relutasse em admitir, a verdade era que jamais se permitira muito tempo para namorar. O trabalho era sua companhia constante.

Uma rotina que, tinha de reconhecer, estava se tornando cansativa.

— Gallagher, você vem ou não para a reunião?

Despertando de seus devaneios, Jodie pegou suas anotações. A voz irritada pertencia ao seu chefe, Ethan Lamb. — Estou indo — disse. — Ethan, eu realmente não acho que...

Ele a interrompeu.

— Já conversamos sobre isso, Gallagher. Deixe que eu falo.

Jodie franziu a testa. Era exatamente este tipo de condescendência que a fazia achar que estava na hora de dar um fim à sua estada na Bradshaw International. Sempre quisera algo mais. Pensara poder encontrar o que procurava ali. Outrora, Ethan havia sido o mentor perfeito, mostrando-lhe toda a operação e a ajudando o tempo todo. Mas, recentemente, vinha demonstrando um mau humor constante. Ela suspeitava que algo tivesse acontecido nos últimos seis meses a ele, que com certeza mudara... para pior. Não estava de todo segura quanto à apresentação que Ethan estava prestes a fazer naquela reunião. As conclusões não eram bem fundamentadas. E, além de sua atitude condescendente, ele ignorara por completo as objeções e preocupações de Jodie.

Se a empresa fosse dela, teria conduzido tudo de modo diferente.

Tendo decidido começar a distribuir o currículo antes do fim da semana, Jodie tomou seu lugar na sala da diretoria da Bradshaw International. Todos os vice-presidentes estavam sentados ao redor da enorme mesa oval, enquanto os executivos menos graduados ocupavam as cadeiras que circundavam o que Jodie chamava à “Mesa dos Adultos.” Ela queria se sentar na “Mesa dos Adultos”.

Ela tinha interesse naquela empresa, um interesse que vinha desde o instante em que aceitara a posição de assistente de marketing. Ambiciosa e capaz de aprender rápido, logo foi promovida. Três promoções mais tarde, atingiu um obstáculo — que pouco tinha a ver com o fato de ser mulher, mas muito com o de não ser casada. Nada foi dito explicitamente, mas o recado foi bem claro.

Jodie reprimiu um suspiro.

Antes de conseguir um marido, precisava de um acompanhante.

Segundos mais tarde, Mark Bradshaw entrou na sala. O estômago de Jodie deu aquela estranha reviravolta que ela sempre sentia quando o via.

C. B. Bradshaw, conhecido por todos simplesmente como O Velho, podia ser o presidente da companhia, mas as rédeas da parte operacional estavam por completo nas mãos do seu belíssimo neto. Alto, de aparência ligeiramente jovial, como se houvesse acabado de chegar de Monte Carlo, do Rio de Janeiro ou do Sul da França, Mark Bradshaw chamava a atenção onde passasse. Incluindo a sala da diretoria da própria empresa. O cabelo louro sempre parecia estar um pouco comprido demais, mas, sem dúvida alguma, ele era o solteirão mais cobiçado num raio de 150 quilômetros de Portland, Oregon.

Com pouco mais de 30 anos de idade, Mark era tudo que Jodie desejava em um homem — embora, com 1,92m de altura, fosse alto demais para o gosto dela, e demasiadamente rico. Esqueça a tal história de que ninguém nunca é rico demais, nem magro demais. Só pensar na quantidade de zeros da fortuna da família Bradshaw, já deixava Jodie tonta.

Jodie queria conforto, mas não ônus. E com 1,67m, com salto, ela não queria ter que se esticar toda para olhar para seu homem.

Mas, no caso de Mark Bradshaw, poderia fazer uma exceção, em ambos os itens.

Jodie e todos os presentes observaram o jovem Bradshaw assumir o comando da reunião.

— Que homem — sussurrou a amiga Nikki, inclinando-se na direção de Jodie.

Jodie concordou com um gesto de cabeça, mas manteve uma expressão neutra no rosto. Puxa, mas ele correspondia exatamente à imagem do homem ideal. Pena que Mark Bradshaw nem soubesse que ela existia.

* * *

Todas as conversas foram interrompidas no instante em que ele entrou na sala da diretoria. Mark Bradshaw escutou os sussurros às suas costas. Eles nunca o incomodaram.

Pelo menos, não até agora — quando a notou fazendo o mesmo. Por um instante, teve dúvidas quanto à lealdade dela. Já havia feito uma avaliação de todos os membros-chaves da empresa. Será que deixara de fora algo importante em relação a ela? Mais importante do que isso — será que o comunicado que pretendia fazer ainda naquele dia era a coisa certa para se fazer, na hora certa?

Determinado a seguir com os planos, Mark cerrou os dentes. Tarde demais, lembrou-se que estava tentando não fazer mais isso.

— Bom dia — cumprimentou, com um tom de voz tão seco quanto seu estado de humor.

Ele caminhou até a poltrona da cabeceira, um lugar que sempre achou incômodo. Mas, com a incessante teimosia do avô, não havia outro modo. Alguém tinha de tocar o negócio.

— Vamos logo dar... — Ele quase disse: “Vamos logo dar um fim nisso”, mas se conteve no último instante — ... início aos assuntos em pauta.

Fez um sinal para que o vice-presidente de produção começasse sua apresentação.

A reunião se arrastou por quase uma hora. Pensando que estava à beira de desmaiar de tanto tédio, Mark virou a poltrona ligeiramente, para poder ver melhor Jodie Gallagher. A única coisa que prendia sua atenção era ela. Quando o vice-presidente de marketing se levantou para dar destaque a uma série de tabelas na apresentação multimídia, a moça olhou para ele. Mark sorriu para ela. Em vez de sorrir de volta — como a maioria das mulheres teria feito —, os olhos de Jodie se arregalaram e piscaram várias vezes, antes de voltarem a fitar Ethan Lamb.

Mark suspirou, desapontado.

Voltou novamente sua atenção para o relatório que estava sendo apresentado. Contudo, quanto mais escutava, mais franzia a testa. Olhou para Jodie Gallagher, que estava sentada na pontinha da cadeira, mordendo o lábio inferior, fitando a tampa de uma caneta.

Com um olhar zangado, mais uma vez se concentrou na tela que descia do teto exatamente para esse tipo de reunião. Não desejava as responsabilidades de presidente-executivo, mas sabia muito bem como lidar com elas, e era plenamente capaz de perceber quando alguém estava tentando lhe passar a perna.

— Tenho uma pergunta.

Todos os olhos se voltaram para Mark. Ele notou que algumas pessoas se comportavam como se ele houvesse interrompido o cochilo delas. Não era surpresa nenhuma que o crescimento da Bradshaw International havia estagnado. Assim como ele, as pessoas que deveriam estar empolgadas com o que faziam estavam entediadas.

Mark suspeitava que muitos, senão a maioria, dos funcionários sentados ao redor da mesa oval estavam ali apenas para receber os contracheques e os benefícios funcionais, aguardando a aposentadoria ou uma oferta melhor, de algum concorrente.

O vice-presidente de marketing, desacostumado a ser interrompido, gaguejou, se perdeu na explicação, tossiu e depois piscou.

— Pois não, senhor?

— Gostaria de saber o que a srta. Gallagher acha.

Os olhos de Jodie se arregalaram. Deixando a caneta cair, ela apertou a pasta larga de encontro ao peito.

— Como disse?

De sua posição na mesa oval, Ethan a fitou, furioso. Como todo mundo sabia, nessas reuniões mensais, assistente era para ser visto, não escutado. Assim era a cultura de negócios da empresa.

Mark se levantou, apanhou a caneta tinteiro do chão e a entregou a moça. Por um instante, suas mãos se tocaram. Ele escutou a súbita inspirada de ar que ela tentou disfarçar.

— Quero tentar algo diferente hoje.

— Mas eu ainda não acabei — disse Ethan.

O olhar de repreensão que Mark lançou chegava a quase dizer: “Se não se sentar, vai estar mesmo acabado.”

Ethan se sentou.

Os presentes trocaram olhares nervosos.

— Quero que todos os vice-presidentes se sentem no círculo externo e os assistentes bem aqui — disse Mark, voltando à sua poltrona e espalmando a mão no tampo da mesa para dar ênfase às suas palavras. — Rápido, pessoal, já perdemos tempo demais aqui.

— Mas, Mark... Sr. Bradshaw...

Mark ergueu a mão.

— Você também, Stanley — disse para o chefe da divisão de vendas, que já estava na empresa há mais tempo do que Mark estava vivo. — Tempo é dinheiro, pessoal. Mexam-se.

Lançando olhares inseguros para todos os lados, os nove assistentes, um para cada vice-presidente, trocaram de lugar com os respectivos chefes.

Depois que todos estavam acomodados, Mark sorriu, e recostou-se em sua poltrona.

— Agora, Srta. Gallagher, está conosco há quanto tempo? Dois anos?

Ela assentiu.

— Sim, senhor.

— E escutou todos os relatórios, não é verdade? Sabe como nos saímos no mercado?

— S-sei.

Estava claro que Jodie não fazia a mínima ideia de onde ele queria chegar, e Mark não via nisso um problema. Queria ver como ela se portava sob pressão.

— Então me diga, Jodie — insistiu.

Ela ergueu a sobrancelha diante do uso de seu primeiro nome. A sala da diretoria costumava ser um ambiente extremamente formal. Mais um dos problemas da empresa.

— O que quer que eu diga, Sr. Bradshaw?

Ele apontou para a tela, que ainda exibia a última imagem da apresentação de Ethan.

— Por que não me mostra todos os erros no relatório de seu chefe?

***





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